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17-12-07

Verdade, só a verdade

Minha pátria é Jacarepaguá. Não por que meu mundo começou por aquelas bandas (e assim foi), mas exatamente pela outra ponta da escatologia: por que esse mesmo mundo acabou por ali, nas bandas da Freguesia. Por dois minutos, talvez.

Aconteceu. Numa tarde, de volta da faculdade, vi meu vizinho, homem feito, pai de família, correndo esbaforido para o carro. Pelo físico e pelo jeito, era um Pavarotti com branco, esquecido da ária, em noite de estréia no Scala.

- Opa. Viu a TV?

- Não, não vi. Tava na rua.

- O mundo tá acabando.

- Como?

- Tá passando na TV. Uma nave desceu na Terra. Dizem que é uma invasão.

- Nossa. O céu tá meio estranho mesmo.

- Tô indo pegar minha filha no colégio, vamos ficar todos juntos.

- Corre lá. Vou abrir a internet pra ver.

- Vamos torcer.

- Vamos.

Pela força do argumento de autoridade, da toga invisível, dei crédito ao sujeito no trajeto entre a calçada e o circuito BBC-CNN-internet. Nada. Nenhum breaking news sobre o fim de todas as coisas.

Imaginei ele no carro, movido por presságios. As pessoas na rua, mais estranhas do que o normal, e o sinal vermelho, será que eles sabiam?, respeitado. Alheio aos cegos e aos resignados, o vizinho seguiu. Tirou a filha da sala de aula, comunicou a verdade a quem lhe cruzou a frente e seguiu para o Alto da Boa Vista.

Esperou lá de cima o arrebatamento e, não, não estava assim tão mal parado; da Vista Chinesa ou de algum outro mirante, tinha os olhos abertos para o último cartão postal.

Só resolveu descer pela vigésima ligação de amigos no celular, de dissuasão. Passou mal quando se tocou que deveria ter desconfiado da TNT transmitindo noticiário, com legenda.

Era filme, e o vizinho sobreviveu para aturar os dias, os anos seguintes.

- E aí, rapaz, como segue a vida agora que o mundo acabou?

Ele ficou triste.

lançado por david às 06:38, arquivado em Baixa gastronomia

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