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08-10-07

A verdade não tolera meia-bunda*

A turma que, nos idos dos anos 60, entoava que o "pessoal é político" mal sabia da arapuca que armava para seus herdeiros. Andar na rua, comprar um tênis, ler o cardápio, trabalhar, foder, dormir tranqüilo e o que mais pode ser esquadrinhado para desnudar "o" poder - a carga da politização de tudo é pesada demais para qualquer sujeito normal. Não é de se admirar que, na hora do aperto, o mesmo sujeito normal tente se desfazer do fardo - ou de parte dele. A mal-estar da inteligência diante do argumento central de Tropa de Elite, "o usuário paga a bala do traficante", fala exatamente desse sufoco.

Pela tese em questão, fumar um é um ato político. O sentido dele - resistência, submissão, alienação por meio do prazer, desafio à autoridade ou o que mais venha à cabeça - pouco interessa. Para que o conceito fique de pé, não pode haver baseado inocente. Nem carreirinha com salvo-conduto. Nem coxinha. Nem copo d'água.

É constrangedor, não há outra palavra, ver gente razoavelmente preparada se sair com um "a questão é complexa, cheia de interesses" para escapar ao desafio central do filme e, de contrabando, despolitizar o bagulho quando politiza todo o resto. Quem já participou de pelo menos uma reunião na vida, de condomínio que seja, sabe que a "complexidade" é a desculpa de quem não quer se posicionar e, ao mesmo tempo, não parecer burro. Ê vergonha alheia.

Foucault e um punhado de franceses plantaram a bomba relógio. Vocês que são "emancipados" que desarmem.

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* Referência tola explicada aqui.

lançado por david às 00:01, arquivado em O capitalismo está em crise

Comentários

Perfeito David!

O processo de polítização que o filme Tropa de Elite está gerando é absurdamente ridícula!

Sinal dos Tempos. É o que dá viver sob o império de Bush e Lula.

lançado por: Homero às 22:39 , 07-10-07

Pra mim a coisa não é complexa, é simples: o usuário tem o direito moral de dar dinheiro para o bandido quando o Estado lhe tolhe a liberdade básica de consumir o que bem entende. Mas eu vou desenvolver isso num post.

O problema não é a tese de que "o usuário paga a bala do traficante", que é tola mas defensável. O problema é a tese de que "a polícia tem que torturar e matar mesmo". E isso o filme abraça desavergonhadamente, apesar de seus realizadores envergonhadamente o negarem.

lançado por: Marcus às 23:01 , 07-10-07

Oba, olha eu aí mais uma vez falando levianamente de algo que não vi/li. Mas a minha impressão é de que o incômodo mesmo da esquerda liberal (no sentido americano) é com o que o Marcus cita aí em cima, de que o filme abraçaria desavergonhadamente a tese de que polícia tem de torturar e matar mesmo.
Eu acho que provavelmente o filme glamouriza o Bope, na figura do capitão Nascimento (é esse o nome?). Isto para mim não é abraçar a tese de que a polícia tem de torturar e matar mesmo, a não ser que admitamos que as trilhões de vezes em que traficantes e bandidos foram glamourizados na dramaturgia nacional (a história de Lampião não é glamourizada?) signifique que os n autores destes relatos aprovam o roubo, o estupro e o assassinato.

Então me parece que a esquerda está chiando porque a reserva de mercado, para os bandidos, de glamourização dos transgressores violentos (sempre numa ótica justificativa na qual o sistema é o verdadeiro vilão, e o bandido é uma espécie de rebelde primitivo com graus variados de barbarismo) foi rompida por este filme.

Se você pega os EUA, tem glamourização de bandido (gangsta rap) e de polícia violenta e transgressora (Dirty Harry, Charles Bronson (bom, gosto pra glamour não se discute)). Aqui no Brasil só tinha de bandido. O mercado agora foi liberalizado e os que detinham o monopólio não gostaram

lançado por: F.Arranhaponte às 23:56 , 07-10-07

Eu acho, Arranhaponte, que o ciclo do cangaço indiretamente apoiava Lampião sim, o considerava um tipo de herói, através de uma leitura torta da história dele (que felizmente já foi desmistificada).

Mas não vejo esse tipo de glamurização no cinema brasileiro moderno. Se fala muito genericamente, mas não se cita exemplos. Cidade de Deus, por exemplo, não toma nenhum partido da bandidagem.

lançado por: Marcus às 14:28 , 08-10-07

Ou seja: a esquerda politiza tudo... Politiza até a grife de óculos do pessoal do "Cansei".

Mas quando é a vez de politizar o baseadinho, ela recolhe a ponta e vai pra casa?


Peçam pra sair, fanfarrões.

lançado por: Nariz Gelado às 16:00 , 14-10-07

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