19-07-07
Bergkamp, gênio da raça

Dennis Bergkamp, craque da Holanda e do Arsenal na década de 90, hesitou em andar de avião até o fim da carreira; só ia forçado. Morava em Londres, jogava pela Laranja e pelos Gunners na Europa, mas preferia sempre pegar um barco, um trem ou um carro para chegar ao destino, mesmo que isso significasse menos preparação, mais tempo e meia dúzia de pedágios.
Bergkamp é foda, um homem de feitos. (1) Acabou com a Argentina em 1998, na França. (2) Reabilitou o medo de voar em um mundo que insistia em tornar natural o antinatural – natural é micose, dor de barriga; planar em algo decididamente mais pesado do que o ar, não.
Enquanto vocês liam besteira, Bergkamp jogava bola e, sem querer, criava um mundo melhor para esses caipiras, como eu, que não conseguem viajar na janelinha.
Pena. Por jugo de um mundo de medida e dimensão, o medo de avião não pode ser abafado para sempre no diversionismo do mar, do trilho ou da estrada. Em algum momento decisivo (uma final de futebol, o aniversário da mãe, a lua-de-mel), Bergkamp e seus legionários medrosos têm que voar: ou bem se dopam, ou bem se enganam.
Bergkamp já teve de voar dopado, dizem. Eu sempre preferi o engano de que voar não passa do trânsito entre dois espaços fora-do-mundo, dois aeroportos. Não há paisagem, goiabinha ou uísque de bordo que superem o que se encontra em terra, num aeroporto. O kitsch, a vitrine, a simpatia desastrada de dar um ar de “casa” ao que não é casa, os taxistas bandalhas, as tropas de mulatas aguardando os gringos, as despedidas, nothing beats the feeling.
Pelo menos, assim me enganava até aquele horror. Agora, preciso de outra mentira. Ou de um doping.
lançado por david às 00:25, arquivado em Baixa gastronomia
Comentários
Parabéns pelos post no geral, Adorei a vaia do Rio, a camiseta da Argentina amarela, os Brasis oficiais e a dor de perder o mundo. Parabéns novamente.
Obgdo.
lançado por: piddi às 19:07 , 22-07-07
