09-11-05
Ras-Tafar-I

O Brasil é a extensão da Tijuca
Em O Imperador (Companhia das Letras, 2005), Ryszard Kapuściński fez a Etiópia contar a história de um reino falido.
Relato de Y.M.:
E aqui eu gostaria de registrar um dado importante: o venerável amo não tinha o hábito de ler. Para ele, os documentos escritos à mão ou impressos não existiam; todos os relatórios precisavam ser orais. Nosso amo não teve uma educação formal e seu único professor - ainda na infância - foi um jesuíta francês, monsenhor Jerome, que mais tarde se tornou bispo de Harare e amigo do poeta Arthur Rimbaud. O religioso não conseguiu incutir no imperador o hábito da leitura, principalmente porque, desde a juventude, Hailé Selassié ocupou altos postos administrativos, que não lhe deixavam tempo para leituras sistemáticas. Mas para mim havia naquilo algo mais do que simples falta de tempo e de hábito. O uso de relatórios orais permitia ao imperador, em caso de necessidade, afirmar que esse ou aquele dignitário lhe relatara algo totalmente diferente do que ele de fato dissera, e o dignitário, sem nenhum documento escrito em que se apoiar, não tinha como se defender. Dessa forma, o imperador ouvia de seus súditos não aquilo que eles lhe contavam, mas o que, na sua opinião, deveria ter sido dito.
Relato de T.L.:
E pensar que Adis Abeba e a Tijuca só faziam esquina em Jorge Ben, filho de mãe etíope. Spyro gyra é spyro gyra.
Para ser bastante sincero, devo admitir que o bondoso amo apreciava mais os maus ministros. Tudo porque ele gostava de se destacar pelo contraste. Como poderia ele se destacar de maneira positiva se estivesse cercado de ministros competentes? A população ficaria confusa, sem saber a quem recorrer e de quem esperar conselhos inteligentes e ajuda. Se todos fossem bons e inteligentes, o império viraria uma bagunça! No lugar de um sol único, haveria cinqüenta sóis, e cada habitante prestaria homenagem a um astro diferente, um que ele mesmo escolhesse. Ah, não, meu caro amigo! Não podíamos expor a população a uma liberdade tão perigosa. O sol só pode ser um; assim manda a natureza, e todas as teorias em contrário não passam de heresia. E o senhor pode estar certo de uma coisa: nosso amo contrastava dos demais, sim, e contrastava de uma forma tão grandiosa e imponente, que ninguém tinha dúvidas de quem era o sol e de quem era a sombra.
lançado por david às 13:02, arquivado em Baixa gastronomia
Comentários
Brilhante, mais uma vez.
Nosso personagem da vida real, como não lê, não tem como formar opinião própria. Tudo é mediado pelos que estão ao seu redor. Infelizmente, seus críticos mais acerbos e antigos, nesse ponto, estavam cobertos de razão.
lançado por: Marcus Pessoa às 13:36 , 09-11-05
Mike 18 http://43133.rapidforum.com/
lançado por: Mike 18 às 15:33 , 01-05-06
